O mundo oferece múltiplas escolhas e, portanto, múltiplos resultados. Isso não significa, porém, que o acaso tenha tomado conta dessa história. A dona da nossa história é sempre a semente.
Um passeio a pé pelo bairro pode trazer surpresas. Se eu escolher adentrar numa rua nova pode ser que não consiga chegar à praça principal. Talvez eu escolha um atalho promissor, talvez me perca por ruelas similares e não encontre mais a direção inicialmente intencionada. Mas também posso chegar a um lugar totalmente diferente. De repente pode surgir um canto especial para tomar um café, escondido num beco desconhecido. E mesmo sem chegar à praça central, antes desejada, vai ser ótimo descobrir o café. Pode ser que o clima do beco seja especial, com suas casas antigas e uma trepadeira de jasmim perfumada, displicentemente debruçada por cima de uma armação de ferro. Achar o beco foi um acaso? Não exatamente. Decorreu da escolha em trilhar pelo atalho. Com nossas atitudes e escolhas atraímos determinados resultados. É como lançar uma semente que já traz em si a característica de nascer feijão, café, jasmim ou erva-daninha. O resultado depende sempre de um primeiro passo determinante.
As crianças aprendem desde pequenas que as flores nascem das sementes. Quando gente grande, olham o mundo e tentam interpretá-lo, mas esquecem do dia em que plantaram um feijão e ganharam um broto. Muitos supõem encontrar acasos e fatalidades. Mas na realidade existem inúmeras possibilidades numa vida de livres escolhas. Entre essa vasta variedade de sementes, escolhemos uma delas para semear. Escolhemos plantar jasmins e não girassóis, escolhemos a ruela em vez da rua principal, preferimos uma carreira em detrimento de outras, decidimos nos especializar em física ou em literatura. Tudo, em última instância, decorre de uma escolha que nem sempre podemos calcular quando foi semeada, se agora ou outrora, mas que redunda em resultados coerentes.
A idéia da semente e do primeiro passo trazem uma certeza, a certeza de sermos agentes da trajetória, pessoas completas em suas escolhas e capazes de determinar caminhos, vibrações e redes de relacionamentos. Isso faz a vida mais segura e mais completa. Mas e o acaso? Enquanto uma vida pautada na crença do acaso traz impotência, a vida pautada na semente traz a idéia de comprometimento e consciência. Responsabilidade. Quem não precisa esperar um presente do acaso constrói o seu próprio presente, usando as escolhas como rumo. Quem não culpa o acaso pelo nascimento da erva-daninha é dono de sua alegria ou frustração. De uma maneira ou de outra, toma posse da vida.
Gente grande deveria plantar feijão de vez em quando, para sentir de novo a força da semente. Esquecer que existiu a semeadura e escolher o acaso como vilão fortalece a idéia de vítima do destino. A vítima é chata, diz-se acuada pela vida, culpa sempre as circunstâncias. A vítima não conhece sua capacidade de transformar, de crescer com as escolhas, não tem o prazer de acertar e errar, de assumir as rédeas da responsabilidade de estar viva. A vida pautada no acaso tem uma certa aura de comodismo: as culpas ficam para terceiros enquanto continuamos fazendo as mesmas coisas e sofrendo as mesmas dores. Algumas descobertas da ciência nos últimos tempos dão o que pensar: não passamos pelo universo como observadores, mas como atores. Tudo o que emitimos gera formas. A física quântica parece querer indicar que as propriedades de um elétron mudam quando este está sob observação. Apenas observar poderia ser então um ato de interagir! E se cada atitude tem valor, cada atitude é semente e cada semente gera frutos.
A questão que merece atenção é que tanto as sementes de erva-daninha quanto as das mais qualificadas espécies são lançadas na mesma terra, no mesmo chão e recebem, portanto, os mesmos nutrientes para seu desenvolvimento e crescimento. Se faço uma boa ou uma má escolha, ambas são escolhas, igualmente tratadas no universo com o mesmo cuidado e atenção. E entre as mil possibilidades, acabamos escolhendo uma, materializando um broto, um fruto, de acordo com a semente de partida. Quando não apreciamos o sabor do fruto ou achamos que ele está azedo ou amargo demais, então o rotulamos de acaso. Mas melhor mesmo é comer a fruta, saboreando a delícia e o desafio de saber que a semente foi lançada por cada um de nós. Bom é sentir a alegria da descoberta de um café, naquela esquina especial do bairro, como surpresa resultante de um primeiro passo por becos desconhecidos.
Por Sibélia Zanon
Jornalista, autora do “Espiando pela fresta” e
colaboradora do blog http://literaturadograal.blogspot.com.br